Muito se fala sobre a substituição das sacolas plásticas por alternativas consideradas mais ecológicas. Mas o que pouca gente sabe é que, ao optar por outros materiais acreditando estar ajudando o planeta, podemos, na verdade, causar ainda mais danos ao meio ambiente.
Um estudo da The Danish Environmental Protection Agency (“Life Cycle Assessment of Grocery Carrier Bags”) mostrou que sacolas feitas de materiais como TNT, papel kraft e algodão podem ter um impacto ambiental maior do que as de plástico. Isso acontece porque é preciso considerar o ciclo de vida completo dos materiais, ou seja, todas as etapas, desde a extração da matéria-prima até o descarte final.
Explicando o ciclo de vida na prática
A pesquisa Hábitos Sustentáveis & Percepções sobre o Plástico, realizada pela Nexus para o Sindicato Indústria Material Plástico Estado São Paulo (Sindiplast/SP), apontou que 49% das pessoas acreditam ser verdadeira a afirmação de que “plásticos gastam mais recursos naturais e energia em sua fabricação do que comparado a outros”. Essa frase é um mito e, segundo a pesquisa, apenas 35% das pessoas entendem isso.
Hoje, com a tecnologia, a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) se tornou mais simples, pois já existem bancos de dados e softwares específicos que permitem a análise padronizada, seguindo a norma ISO 14040. Essa metodologia é amplamente utilizada no mundo todo para determinar se um produto, processo ou serviço é realmente sustentável.
Para analisar o ciclo de vida é preciso observar diversos fatores do processo de criação de um produto. Isso inclui:
- Matérias-primas
- Energia
- Resíduo (na produção)
- Subprodutos
- Transporte
- Resíduo (no final da vida útil)
- Descarte
E é a soma e resultados desses fatores que devemos levar em conta para considerar um impacto ambiental real. Portanto, afirmar que os plásticos gastam mais recursos naturais e energia em sua fabricação do que outros produtos é errado, como vamos observar ao longo deste artigo.
Emissões de CO₂ equivalente: comparando diferentes tipos de sacolas
O CO₂e é uma unidade de medida que serve para comparar o efeito de diferentes gases de efeito estufa no aquecimento global e significa dióxido de carbono equivalente.
Quando você substitui uma sacola plástica comum (LDPE) por uma de papel kraft, precisa reutilizá-la, no mínimo, 43 vezes para compensar a emissão de seu ciclo de vida completo. No caso da sacola reutilizável, esse número sobe para 52 vezes. Já a sacola de algodão orgânico, muitas vezes vista como sustentável, precisaria ser reutilizada surpreendentemente 20.000 vezes para se equiparar ao plástico.
Quanto de CO₂e (kg por uso) é emitido na produção de diferentes tipos de sacola?
- Sacola plástica – 0,018 kg CO₂e
- Bioplástico (PLA) – 0,03 kg CO₂e
- Sacola de papel kraft – 0,051 kg CO₂e
- Sacola reutilizável – 0,059 kg CO₂e
- Sacola de algodão convencional – 2 kg CO₂e
- Sacola de algodão orgânico – 2,7 kg CO₂e
Importante ter em mente que essas comparações não levam em consideração o número de usos necessários, mas sim a base de 1 uso para todos os tipos de sacolas.
Referência de emissão:
- 1 km rodado por um carro a gasolina ≈ 0,192 kg CO₂e
- 1 hora de ar-condicionado ≈ 1,2 kg CO₂e → 1 min ≈ 0,02 kg
- 1 árvore média absorve ≈ 22 kg CO₂e por ano ≈ 0,06 kg por dia
Aumento da emissão em comparação a sacola descartável de LDPE:
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Ou seja, alternativas que parecem sustentáveis podem, na realidade, ter um impacto ambiental muito maior.
Lembre-se: para considerar um material nocivo para o meio ambiente em comparação a outros tipos, é necessário entender todo o processo de ciclo de vida deste material.
Por que as sacolas plásticas ainda são uma boa opção?
1. Reaproveitamento no dia a dia
Ao contrário do que se pensa, as sacolas plásticas podem ser reaproveitadas e utilizadas mais de uma vez, principalmente para o descarte de resíduo doméstico.
2. Impacto econômico
As sacolas plásticas são fundamentais para o varejo alimentar no Brasil, sendo utilizadas por cerca de 90% dos varejistas. Além disso, segundo dados da ABRAS e Nielsen (2022), elas transportaram 6,33% do PIB brasileiro em 2021.
De acordo com a ABIPLAST, o setor encerrou o ano de 2024 com 387 mil empregos diretos.
3. Impacto social
O banimento das sacolas plásticas prejudicaria as classes D e E, que utilizam principalmente o transporte a pé para suas compras, limitando o volume de mercadorias que podem adquirir. Segundo pesquisa Datafolha, 81% dos entrevistados que transportam as compras a pé pertencem a essas classes e contam com as sacolas plásticas como auxílio no transporte das compras.
Uma sacola plástica é capaz de carregar 1.000x o próprio peso.
4. Impacto na renda familiar
Um estudo realizado pela FIPE indica que o custo mensal com embalagens para transporte de compras e descarte de resíduo aumentaria em 146,1% em caso de banimento, impactando a renda familiar.
5. Menos impacto para o meio ambiente
Segundo dados da DEPA-Danish Environmental Protection Agency (2018) e UNEP-United Nations Environment Programme (2020), a sacola plástica convencional tem menor impacto na poluição atmosférica, no uso de água e na acidificação do solo em comparação com materiais como saco de papel e sacola de algodão.
- Comparando a categoria de impacto em poluição atmosférica, por meio do impacto na concentração de ozônio:
O saco de papel tem um impacto 104,26% maior que a sacola plástica convencional e o algodão, 1.999.900,00% maior.
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- Comparando a categoria de impacto em consumo de água para a fabricação:
O saco de papel tem um impacto 862,96% maior do que a sacola plástica convencional e o algodão, 379.900,00% maior.
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- Comparando o impacto em acidificação do solo, através da formação em kg de CO₂ eq:
O saco de papel tem um impacto de 161,25% maior do que a sacola plástica convencional e o algodão, 75.900,00% maior.
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Mais importante do que escolher materiais com base apenas na aparência de “sustentáveis”, é essencial avaliar o impacto real que cada um deles causa ao longo de todo o seu ciclo de vida. A Avaliação do Ciclo de Vida mostra que, quando reutilizadas e corretamente descartadas, as sacolas plásticas continuam sendo uma opção eficiente tanto para o meio ambiente, quanto para a economia e o aspecto social.